
À morte
Tu hás-de vir, dê por onde der - por que não já?
Espero por ti - e tão difícil me é viver.
Apaguei a luz e abri-te a porta,
a ti, ó tão simples e maravilhosa.
Toma o aspecto que quiseres,
irrompe como um projéctil envenenado ou avança
sorrateira de barra na mão como o bandido experiente,
ou envenena-me com ar de tifo.
Vem como conto de fadas que inventaste
e toda a gente conhece até à náusea -
para que eu veja o cocuruto do boné azul *
e o porteiro pálido do medo.
Tanto me faz. Ferve o Ienissei. **
Brilha a estrela polar
e a luz azul dos olhos amados
anuvia-se no derradeiro horror.
19 de Agosto de 1939. Casa do Fontanka
Anna Akhmátova
* boné azul - os bonés de cor azul dos agentes do NKVD = ir presa.
* Ienissei - rio da Sibéria na região onde se situavam muitos dos campos de concentração.

