segunda-feira, 11 de outubro de 2010


À morte

Tu hás-de vir, dê por onde der - por que não já?
Espero por ti - e tão difícil me é viver.
Apaguei a luz e abri-te a porta,
a ti, ó tão simples e maravilhosa.
Toma o aspecto que quiseres,
irrompe como um projéctil envenenado ou avança
sorrateira de barra na mão como o bandido experiente,
ou envenena-me com ar de tifo.

Vem como conto de fadas que inventaste
e toda a gente conhece até à náusea -
para que eu veja o cocuruto do boné azul *
e o porteiro pálido do medo.
Tanto me faz. Ferve o Ienissei. **
Brilha a estrela polar
e a luz azul dos olhos amados
anuvia-se no derradeiro horror.

19 de Agosto de 1939. Casa do Fontanka
Anna Akhmátova

* boné azul - os bonés de cor azul dos agentes do NKVD = ir presa.
* Ienissei - rio da Sibéria na região onde se situavam muitos dos campos de concentração.

sábado, 9 de outubro de 2010

Dez do dez. Madrugada. Domingo.
O perfil da cidade da perdição.
Algum fanfarrão idealizou
essa lorota de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos caíram e assim viveram:
esperando encontros, temendo rupturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros foi revelada a verdade
e sobre estes recairá o silêncio…
Eu tropecei nela casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

uma adaptação de Anna Akhmatova, que sempre viveu a verdade do ser.



Angst (Ansiedade), de Edvard Munch (1863-1944)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz…
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.


(Anna Akhmatova, 1934)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA



Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

Dylan Thomas