quinta-feira, 29 de julho de 2010

Linha tênue.


Como julgar a loucura? Ou melhor, o que é normal? Como explicar a frase da doente mental Estamira: "não existem mais ´inocentes´, mas sim ´espertos ao contrário´ " ? O documentário do diretor Marcos Prado, que leva o próprio nome da mulher, que trabalhava (orgulhava-se muito disso) há mais de duas décadas no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro vem para levantar essas questões e expor a percepção de si própria, uma “louca”, e do mundo.
Tudo começa no ano de 2000 quando o fotografo Marcos Prado encontra Dona Estamira no lixão (que se transformou num aterro e que já foi transferido, pois atingiu sua capacidade máxima), na ocasião ela o havia dito que sua missão era: revelar ‘a verdade’, e o questionou se ele tinha conhecimento da sua missão, ao hesitar ela completou: “sua missão é revelar a minha missão”. Prado então a aceitou e passou a visitar durante anos Estamira em sua casa com seus filhos (3 filhas e um filho) assim como, no lixão com seus companheiros catadores, não deixou é claro de registrar todas essas visitas em imagens que vão do colorido natural ao preto e branco desintegrante!
Ironicamente o documentário que trata da condição humana, se passa num lixão. E com a delirante Dona, vamos percebendo que a loucura é apenas um ponto de vista, que o ser humano vive num extremo plano materialista e superficial.
Não se engane com Estamira, como a própria anunciou, não existem mais inocentes. Ela pode parecer audaciosa, verbalmente agressiva (principalmente quando o assunto é Deus), até mesmo desagradável, mas ai que está o interessante, ouvir sua revolta contra o “Deus estuprador”, assim como os questionamentos as condições dos hospitais psiquiátricos, dos ambulatórios, dos tratamentos restringidos à prescrição de fortes medicações que podem até mesmo amenizar os delírios das psicoses, mas até onde se corre o risco de ignorar o que os outros falam? Uma das lições, se assim podemos falar, que Estamira nos passa é aprender a ouvir e respeitar.
Para finalizar com genialidade o cineasta nos leva a refletir sobre o único modo de como realmente levamos a nossa vida, na loucura. Juntamente a imagem dos morros do Rio, destacando, o lixo.


Gênero: Documentário
Tempo: 127 min.
Lançamento: 2004
Classificação: 10 anos
Produzido: Marcos Prado, José Padilha
Distribuidora: Europa Filmes

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